sexta-feira, maio 08, 2026

Viagem ao Nihon

 Nesses últimos 30 dias, fiz a maior viagem da minha vida. Fui para o Japão, um sonho antigo, e que eu não imaginava tudo que poderia representar.


Ao todo, visitei 9 cidades por lá: Tóquio, Sapporo, Atami, Osaka, Kyoto, Hiroshima, Nagoya, Shizuoka e Yokohama. Algumas por vários dias, outras só um dia de passagem. Criei álbuns de fotos para cada uma dessas passagens, e compartilhei com algumas das pessoas que mais amo, pois queria não que vissem o Japão turístico, pois isso dá pra achar fácil na internet  Queria que vivessem e compartilhassem um pouco daquilo que eu via e sentia, através das fotos bonitas, das fotos desfocadas, das fotos sem sentido.


Foram muitos sentimentos, e não sei se já consigo traduzir em palavras. Estar em contato com a terra em que meus avós nasceram, entender um pouco mais de onde vim, trouxe outros significados e reflexões. Por todo lugar que passava, procurava essa conexão, e por muitas vezes a encontrei. Às vezes numa rua cheia de plantas, às vezes num casal de velhinhos caminhando juntos, às vezes num belo pôr do sol enquanto eu corria. Coisas simples, mas que significaram muito pra mim.


Tentar ver a história com meus próprios olhos, tocar o que vem sendo mantido há décadas, há séculos, ver uma cultura e organização completamente diferente do Brasil, ver um povo que se comporta de uma forma que parece uníssona, onde mesmo com tantos milhões de pessoas, as engrenagens parecem rodar.


Mas o ponto que quero deixar aqui, tem a ver com talvez o momento mais emocionante dessa minha viagem, uma visita a um museu que eu CHOREI, e o filme que acabei de ver, Velozes e Furiosos 7. Sim, pode acreditar, tem alguma correlação.


O museu era o Museu da Paz de Hiroshima, um memorial construído e mantido no pós guerra, bem onde foi o epicentro da bomba. Logo de cara, te colocam com os relatos de como era Hiroshima, e o que se tornou após a bomba. E todas as sequelas disso. De quem sobreviveu, de quem não sobreviveu, e de quem mantém essa memória viva até hoje. São vários relatos, alguns recortes, outros extremamente completos e profundos, mas todos cheios de carga emocional, de sonhos, e do que poderia ser e não foi.


E uma história me pegou em especial. Da Sadako, uma jovem que tinha apenas 2 anos quando houve a bomba, mas sobreviveu e levou uma vida na infância relativamente normal, com seus familiares ao redor, frequentando escola, com amigos, assim que a vida pode voltar ao normal. Isso durou 10 anos, até que ela foi diagnosticada com leucemia. Os pais não contaram de início, mas quando o corpo foi cedendo e ficando mais fraco, ela mesma tentava se manter forte para não preocupar os pais e os amigos. Esses, obviamente preocupados, fizeram 1000 tsurus, pois há uma crença japonesa que se alguém fizer isso para alguém enfermo, essa pessoa irá se curar. Sadako, infelizmente, não resistiu.


Não tem como eu dissociar isso da história da minha sobrinha, a Yukari, principalmente com os 1000 tsurus. Eu chorei, por ela, por eles, e levei alguns minutos para me recompor. E a conexão com cada lugar foi se construindo dessa forma, descobrindo e redescobrindo o que realmente me importa.


Muitos de nós fomos criados para ter como sonho constituir família, tradicional, com cônjuge, filhos, e perpetuar o sangue. Mas, aí é onde entra o filme: e se o conceito de família for quem a gente escolhe que faça parte dela? Há décadas eu já penso dessa forma, pois a família de sangue ela só vem, não é uma escolha  é uma imposição. Às vezes, damos sorte de serem boas pessoas. Às vezes, são pessoas tão horríveis que dá vergonha de carregar o mesmo sobrenome. Agora, a família que escolhemos... Podemos ser quem somos, verdadeiros, pois a conexão existe. E não é sobre ser iguais, sobre ter mesmos gostos. É sobre confiança. É sobre saber que estarão lá nos momentos bons, e principalmente, nos momentos ruins.


E assim, em cada templo budista onde passava, há a cultura de jogar uma moeda no altar específico, e fazer uma oração e um pedido. Em todos eles, desejei a mesma coisa: que as pessoas que amo sejam felizes.


O Japão significou pra mim não pelas experiências modernas que proporcionou, não pela sua tecnologia e organização, não pelas compras que fiz e me deixaram ligeiramente falido. O Japão significou pra mim muito mais, saber onde pertenço, o que significa o peso do passado de quem veio antes de mim, o porquê que gosto de seguir regras e, ao mesmo tempo, entender elas pra desvirtuar elas. E, principalmente, porque amo tanto as pessoas que amo.


Claro, teve toda a experiência gastronômica, mas esse é um capítulo a parte. É sobre ikigai, é sobre propósito, e sei que dei o meu melhor, mesmo quando não aguentava mais  37 ramens em 26 dias de Japão. É mais do que um por dia. Só um dia não comi ramen por lá, mas outro dia comi 4. E assim seguimos.


Muito grato por tudo. Logo mais estou pisando em terrinhas brazucas novamente, cansado, muito cansado, mas muito feliz que vou poder rever pessoas. E abraçar. E dar carinho. E viver. Tudo aquilo que outros não puderam. Muito grato mesmo.

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