Não sei se isso era segredo, mas vou deixar claro aqui: não tenho afinidades para com meu pai. Não que eu odeie ele, ou desgoste, ou que venha a destratá-lo. O respeito pelo papel de pai que desempenhou: nunca faltou comida à mesa, na medida do possível, sempre tivemos tudo aquilo que queríamos durante nossa infância. Porém, acredito que a figura do pai não seja simplesmente no provimento material e financeiro na criação de uma criança, e sim muito além disso.
Não digo que faltou 'amor'. Sempre fui ensinado a dar boa noite, a jantar à mesa, a ter esses laços familiares que muitas famílias prezam tanto hoje em dia. Mas sabe quando faltavam palavras de carinho, de incentivo, de atenção? E que eu, com o passar dos anos, percebi que outros recebiam, vindos até dele mesmo, meu pai, para com os outros, mas não para com a minha pessoa?
Também fui vendo a figura ríspida, machista, racista, intolerante e ignorante em alguns assuntos que essa pessoa é. Figura de pai que muitas pessoas buscam ter como exemplo. E conforme o passar do tempo, e compreendendo o que significavam aquelas palavras carregadas de ignorância, ódio preconceituoso, tirei minhas próprias conclusões. Com mais argumentos, tentei argumentar. Em vão. Era como uma porta fechada, onde novas idéias não eram permitidas entrar.
Então vieram os choques. Abandonar a faculdade. Pedir demissão do emprego. Recomeçar, buscando um futuro melhor. Terminar um namoro que não estava dando certo. E abandonar novamente a faculdade, apostando no lado profissional. Não tive apoio, em nenhum momento, pelo contrário. Ficamos sem nos falar por meses. Nem um oi. Nem um boa noite. Nem um gesto. Éramos como estranhos apenas morando sob o mesmo teto.
Não quero justificar meus defeitos, culpando pela falta da figura do pai que sinto que tive em minha vida. Pois não é recente essa falta de apoio, que em muitos momentos desejei ter. Mas algo que sei que podia ter sido melhor, caso tivesse tido apoio, é um bem claro: teria aprendido a receber elogios. Até hoje não sei, e quando recebo um, ao invés de continuar bem ou melhorar, pelo contrário, só pioro em relação ao elogio que recebi. E não é intencional.
Problemas pequenos se comparados aos de outras pessoas. Mas ainda assim são realidades e reminiscências dessa mente perturbada que escreve pela madrugada. Hoje não sinto falta da figura de pai, pois na marra aprendi muitas coisas que a vida teve que me ensinar, a duros tapas e duros golpes. Tampouco o culpo por nada do que fez, ou principalmente, deixou de fazer. Só não consigo, de verdade, sentir esse amor paterno. Tenho plena consciência de que não irei cuidar dele ao envelhecer. Não sinto esse laço familiar, pois este não foi criado e sustentado. Foi simplesmente jogado, como um manual explicando, onde você decora como faz, o faz, mas não entende, e espera que quando precisar, você ainda o saiba fazê-lo... só que as coisas mudam, avançam, e se não acompanhar, você fica pra trás.
terça-feira, setembro 06, 2011
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